OLADG – Hallucination

Depois de mais de dois meses de posts, chegamos ao final desta saga. Foi muito gostoso, para mim, revisitar o que estudei e pensar em como compartilhar o que era um conteúdo tão denso de uma maneira mais amigável 😉

Tendo então visto a campanha Roman Rhapsody no post anterior, agora falo sobre a Hallucination. Bora assistir?

Assim como o filme anterior, esse também tem direção de arte de Christopher Simmonds e direção criativa de Alessandro Michele. Diferente do anterior, porém, a trilha neste é calma e o ambiente transmite uma arrumação que não temos no outro vídeo.

O ponto-chave aqui é o modo com que a arte é abordada: se antes eram referências menos explícitas, aqui estamos numa Gucci Gallery, e as paredes estão cheias de quadros com peças de roupa da marca casualmente inseridas, ilustrações desenvolvidas para a campanha por Ignasi Monreal. Por fim, o apresentador ainda entra no quadro maior e literalmente abraça a arte. Então a marca expõe, propõe, e ainda se torna a arte. Quer narrativa mais poderosa?

Esse quadro “invadido” é uma releitura da Ophelia de John Everett Millais, de 1852 e, como vamos ver, é só um dentre outros que também criam um novo discurso a partir de obras reconhecidas.

Indo além do vídeo, a marca fez um site interativo para a campanha com as criações de Ignasi Monreal, que você pode conferir aqui. Na época da divulgação da coleção, em 2018, quando clicávamos em alguma peça, éramos levados a ela na loja online da Gucci, mas hoje esse encaminhamento não acontece mais.

No site, vemos uma miscelânea de referências de vários períodos e estilos artísticos, mas também referências mitológicas e religiosas. Essa mistura é muito própria das criações contemporâneas, e garante que não sejam uma simples referência a algo passado, mas a produção de um novo sentido, original, que também contribui para a tão sonhada diferenciação da marca naquele cenário todo de saturação que comentei antes.

Nessa que é uma das primeiras composições do site, vemos a Galeria Gucci, com obras na parede e até um aviso de piso escorregadio. Se a gente reparar lá no site, algumas obras são apresentadas até como “Acrílico no Photoshop”, ou “Óleo sobre Photoshop”, ironizando o jeito como as pinturas costumam ser descritas, o famoso “óleo sobre tela”.

E aí, passeando pelo site, escolhi mais duas composições para comentar aqui. A primeira é essa cena do barqueiro com um personagem dormindo sobre a mão e vários outros elementos fantasiosos. Quando fizemos nossa pesquisa, minha amiga Laura identificou que existia aí uma referência ao quadro Christ Asleep during the Tempest, de Delacroix, que retrata uma cena bíblica. Na versão da Gucci, contudo, vemos um macaco alado como os de O Mágico de Oz, sereias e, por que não, uma coruja com chifres e uma argola no bico. A marca mistura vários assuntos num mesmo cenário, e o resultado é que já não é unicamente uma referência artística, como a miniatura da Vênus de Milo no outro filme, mas algo realmente novo.

Por fim, escolhi falar dessa outra composição, que é um dos elementos que mais se destacam no site. Nela vemos uma referência clara ao tríptico O Jardim das Delícias Terrenas, de Bosch, com um cenário cheio de verde, pessoas em tamanho menor e uma construção de formato similar às que estão na obra famosa. Olhando mais atentamente, porém, a gente nota que na criação de Bosch o lado escuro representa o sofrimento, enquanto na releitura da Gucci as pessoas têm expressão neutra em ambos os lados. Além disso, reparando no casal central, percebemos que eles usam roupas de cores opostas ao lado que ocupam do cenário, reforçando essa neutralidade. A composição de Gucci é a união. O casal ainda reproduz a pose dO Casal Arnolfini, de Jan van Eyck que, assim como Bosch, tem suas obras encaixadas no estilo gótico, que marca o auge da Idade Média.

Nesses exemplos que selecionei pudemos perceber o quão diversa foi a abordagem de referências da arte nessa campanha da Gucci, e como a marca mesclou tudo isso a outros elementos, de várias origens diferentes. E, já que o problema que tinha apresentado era que a moda passa por um momento de saturação, a marca aí constrói a sua identidade e se diferencia do cenário geral, somando não só essas duas campanhas, mas toda a narrativa desenvolvida por Alessandro Michele.

Um abraço pra todo mundo que acompanhou essa série de posts, e reforço que se tiver vontade de ler o trabalho completo, ele está aqui!

Até mais!

Imagens: Tate Museum / Met Museum / Museo del Prado / National Gallery / Capturas de tela / Divulgação Gucci

OLADG – Roman Rhapsody

Chegamos ao penúltimo post da série sobre a pesquisa que desenvolvi durante o ano passado! Neste, trago uma breve análise do filme da campanha da Gucci chamada Roman Rhapsody, pensada para a coleção Cruise de 2018.

E já que ele é o assunto, bora assistir!

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OLADG – A Gucci de Alessandro Michele

Depois de ter trazido um pouco (só um gostinho!) do histórico moda e arte, considero que já é hora de começar a falar sobre como essa relação aconteceu na Gucci. Pra início de conversa, a marca já passou por diversas fases estéticas, como é comum acontecer nessas maisons de luxo.

Quando o diretor criativo era Tom Ford, por exemplo, entre 1994 e 2004, tanto as roupas produzidas pela marca quanto a sua comunicação destacavam a sensualidade, com tons mais neutros e cores sólidas.

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OLADG – Artistas e estilistas

No post anterior, comecei a falar sobre como acontecem os diálogos entre arte e moda e neste eu trago um pouco das trocas entre artistas e estilistas para o desenvolvimento de peças de roupa e coleções. Aqui, o foco não é os registros da moda a partir da arte ou vice-versa, mas a mescla entre ambas, e isso pode acontecer de maneira que se torna difícil separar os limites entre uma e outra. Relembrando um conceito de química, uma emulsão, quando dois líquidos que não se dissolvem um no outro (tipo água e óleo) se tornam uma misturinha estável.

Sendo assim, vamos investigar essas emulsões, colaborações, coleções… 

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OLADG – A arte fala da moda

Para começar a falar sobre a arte e a moda, vou falar sobre as mídias. Os registros artísticos foram, durante milhares de anos, os únicos responsáveis por registrar as imagens e qualquer mínima evidência de como era o visual das coisas. Se a invenção da escrita e a prensa de Gutenberg foram fundamentais para a propagação das histórias e dos fatos, pintura e escultura, desde povos muito ancestrais, transmitiam informações visuais.

Até que surgisse e se popularizasse a fotografia, entretanto, todo esse registro estava unicamente sob a responsabilidade de artistas. Era comum que pintores embarcassem em expedições de descobrimento para registrar os achados, por exemplo, e também que, a cada roupa nova de um rei, um novo retrato fosse feito. Vou falar mais sobre isso.

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OLADG – Tentativas de diferenciação

No post anterior eu comentei sobre uma aceleração recente da dinâmica da moda, e que isso gera condições que impossibilitam as marcas de seguir esse ritmo tão intenso, ou pelo menos que a maior parte delas o faça.

Aqui vou me estender um pouquinho a respeito de quais seriam algumas estratégias possíveis para tentar escapar dessa lógica. Continuar lendo “OLADG – Tentativas de diferenciação”