Recentemente, um vídeo me chamou a atenção na linha do tempo do Facebook: ele expunha de maneira breve a situação de Bihor, uma tradicional vila romena que ganhou destaque mundial após a coleção de Pre-Fall de 2017 da Dior.  Ao contrário do que você pode estar imaginando, Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da marca, não promoveu uma homenagem ao povo de Bihor por meio da coleção, mas se inspirou num traje característico feito de maneira artesanal na região para deselvolver algumas de suas peças. Embora as viagens e os diferentes povos fossem citados à época do desfile como pontos de partida para o desenvolvimento das peças, não havia nenhuma menção específica a Bihor.

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Looks da Pre-Fall 2017 de Dior

Cientes da semelhança entre as peças tradicionais e as vendidas pela Dior e da discrepância de preços entre ambas, a revista romena Beau Monde, neste ano, teve a iniciativa de desenvolver a Bihor Couture, uma marca mundial para a divulgação do trabalho das artesãs locais e consequente reivindicação da autoria das belas peças. No seu site, é possível encomendar as roupas e os acessórios com a garantia de que o dinheiro gerado irá para os produtores. Os preços variam de €5, para um broche feito com miçangas, a €500, para a famosa jaqueta, que custava €30.000 na versão Dior.

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Dorina Hanza e Gladi Dogaru, duas das artesãs da Bihor Couture, com algumas das peças disponíveis para encomendas

Como parte da divulgação do projeto, foram desenvolvidos alguns vídeos que mostram a interação do povo de Bihor com as peças da Dior e com o ambiente da Paris Fashion Week. Abaixo está o primeiro episódio da série, no qual as artesãs veem o look proposto por Maria Grazia.

Tal como o caso do artesanato de Bihor, são memoráveis as bolsas wayuu, originalmente feitas pela tribo colombiana homônima, que se replicaram à exaustão pelas mais diversas lojas sem que o povo que as idealizou fosse agraciado proporcionalmente pelo sucesso. Mesmo a técnica de pintura batik ou as estampas tartan, hoje tão disseminadas, têm origem em contextos específicos da ilha de Java e da Escócia, respectivamente. Nesse sentido, a Bihor Couture se impõe sabiamente como estratégia para que a origem dessa estética se mantenha conhecida, em vez de sujeitá-la ao mérito da Dior.

Os registros de propriedade intelectual na moda, entretanto, são ínfimos e se limitam a logotipos e outras representações de marcas. Isso ocorre pois as vestimentas são julgadas “muito utilitárias” para serem patenteadas e, de certa forma, compõe a moda tal qual a conhecemos, ou as modelagens não poderiam ser replicadas pelos diferentes designers e fabricantes. Se assim fosse, a minissaia estaria até hoje sob o domínio de Mary Quant e o vestido envelope, nas mãos de Diane von Furstenberg. A democratização das formas e combinações, entretanto, não exclui o destaque de figuras como elas.

É devido a essa constante renovação da “ordem geral”, também, que uma parcela da moda seguiu o caminho inverso a essa leitura utilitária, tornando-se arte, quando os recursos utilizados são tão específicos e as propostas visuais oferecidas são tão inovadoras que não há como não considerar a autoria. No mar de réplicas, destacam-se por serem difíceis de copiar.

A reflexão acerca do plágio ou não, entretanto, segue presente. Haveria maior esforço geral na direção de criar novas peças com a certeza de contar com o seu trabalho criativo assegurado? Ou seria um cenário mais acomodado, com lojas especializadas em um modelo de sucesso, replicado incessantemente? À parte disso, sou sempre a favor do reconhecimento das origens de uma peça e, dessa maneira, não poderia julgar a Bihor Couture mais acertada.

Na expectativa de ver mais produtores artesanais clamando o que lhe é por direito!

Imagens: Divulgação/Dior/Bihor Couture

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